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O balé de Macron e Trump

26 Abril 2018 - Atualizado há 2 anos
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 Fracassou o objetivo explícito da visita do presidente francês, Emmanuel Macron, a Washington: evitar que Donald Trump retire os Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã, cuja renovação é prevista para 12 de maio. Mas Macron atingiu seu objetivo implícito de projeção politica.    

 “Minha opinião – não sei o que seu presidente decidirá – é que ele se livrará deste acordo por razões domésticas”, afirmou Macron na entrevista coletiva que deu ontem pouco antes de voltar à França.    

 O pretexto da viagem era convencer Trump a entrar em negociações para substituir o acordo atual por um novo acordo que endereçasse seus pontos fracos: a ausência de exigência relativa ao desenvolvimento de mísseis balísticos e ao envolvimento iraniano na Síria.    

 Mas a ideia de novas e desgastantes negociações não é endossada nem pela Alemanha, principal parceira da França na União Europeia (UE), nem pela própria UE. “Um novo acordo nuclear não está na mesa”, afirmou o ministro do Exterior alemão, Heiko Maas. Reino Unido e Rússia também resistem à ideia de uma nova maratona de negociações.    

 Sem os Estados Unidos, o Irã deixou claro que o acordo nuclear naufraga. “Se nossos benefícios não forem garantidos, sairemos”, diz o presidente iraniano, Hassan Rowani. Não interessa a Rowani rever os termos firmados em 2015, que se revelaram vantajosos ao regime dos aiatolás. Pelo acordo, o Irã desiste até 2025 de seu programa nuclear em troca da suspensão de sanções econômicas. Depois de 2025? Incógnita.    

 Os riscos dessa situação são evidentes e só tendem a crescer com o tempo. Num cenário de escalada militar no Oriente Médio, o conflito na Síria pode não passar do prelúdio a um enfrentamento mais amplo entre potências regionais (Irã, Arábia Saudita e Israel) ou estrangeiras (Estados Unidos, Rússia e UE). Em vez de deter as tensões, o acordo frágil com o Irã acabou por agravá-las.   

 Macron tem razão em tentar aperfeiçoá-lo. É duvidoso, contudo, que tivesse muitas esperanças de que Trump aceitasse a sugestão. Obteve o possível, uma declaração de abertura a um novo acordo. “Ninguém sabe o que farei no dia 12, embora o senhor tenha uma ideia bastante boa”, disse Trump na terça-feira. “Veremos se faço o que alguns esperam, se será ou não possível um novo acordo com fundações sólidas. Porque este é um acordo com fundações podres. É um acordo ruim.”    

 Só palavrório. A saída americana do acordo é dada como certa pelos observadores em Washington. O novo conselheiro de segurança nacional, John Bolton, e o recém-nomeado secretário de Estado, Mike Pompeo, são conhecidos opositores da iniciativa diplomática do governo Barack Obama. Antes mesmo de sua nomeação ser cogitada, Bolton descrevia por escrito estratégias para os Estados Unidos caírem fora.    

 Nem por isso Macron deixou de alcançar seu objetivo implícito: projetar uma nova liderança global para a França. Ele se aproveita de sua química pessoal com Trump – os dois se comportam como amigos de ginásio – para ocupar um papel que caberia em princípio à Alemanha: líder das aspirações europeias diante da maior potência global.    

 Em seu discurso de ontem diante do Congresso americano, Macron declarou oposição a tudo aquilo em que Trump diz acreditar. “Não compartilho o fascínio com potências fortes, o abandono da liberdade e a ilusão do nacionalismo”, afirmou. Era uma referência clara aos slogans de campanha de Trump, como “América primeiro”. 

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